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O governador me liga

Um belo dia, o telefone toca, inundando a minha vaidade e os ouvidos sujos com uma voz embargada, inconfundível.

– Alô? Quem fala é Jackson Barreto.

O motivo do contato inesperado não vem ao caso, estava relacionado à minha coluna no Jornal do Dia. Mais importante foi a ligação, ela mesma. Lá pelas tantas, o governador me autoriza a afirmar onde fosse: dava toda a atenção do mundo aos meus pitacos.

Muito breve, aquela conversa me estragou inteiro. Durante várias semanas, não perdi a oportunidade de insinuar a minha enorme influência em questões de Estado. Só depois de um tempo, confrontado pela realidade e a incredulidade dos amigos, me dei conta de que o episódio atestava algo mais óbvio: ainda é enorme o prestígio e o status profissional derivado do jornal impresso.

“Ainda”, aqui, é a palavra chave. Em qualquer redação, hoje, a incerteza é uma sensação quase palpável. Os veículos terão de se transformar. Para o bem e para o mal, já estão se transformando. As demissões refletem a baixa circulação, as tiragens em queda livre. A notícia nunca foi matéria tão ordinária, não vale nem um tostão furado.

Há poucos anos, o todo poderoso governador de Sergipe quis ouvir a opinião de um jornalista pé de chinelo. Não o editor, não o dono do jornal, mas um reles colunista. Qual a chance de acontecer de novo, no futuro? Para tanto, independente da plataforma e tecnologia empregada (papel ou byte), alguém terá de fazer Jornalismo com gosto e letra maiúscula, terá de existir jornal.

Comentários

  1. É a inescapável mudança de paradigma. A tecnologia é parte do processo econômico. Certo barbudo alemão disse que a economia muda o mundo e as relações sociais. Outro barbudo, um inglês, disse que os animais se adaptam ao meio para sobreviver. O animal humano, ele mesmo, engendra suas tranqueiras, e, nas relações com elas, um dia se sente impelido a dizer: Ou mudo ou morro.

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  2. Jornalismo é sempre e mais do que nunca necessário... as transformações do modelo econômico das empresas é que estão em decadência. Mas a informação ainda é moeda preciosa e valiosa no mundo contemporâneo. Penso que mais do que nunca o trabalho árduo e zeloso do jornalismo de qualidade é essencial junto a outra senhora que vive se reinventando: a democracia. Sua credibilidade e independência traz um peso a sua palavra... isso vale em qualquer plataforma e não é conquistada de um dia para o outro.

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