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Um autor imprestável

O desembargador Edson Ulisses de Melo volta a ser mencionado em letra de imprensa. Rico e poderoso, autor de dois livros, ele empurra o pacote para frente sem um pingo de constrangimento. Assim, apesar da serventia pouca, ‘Reflexões cidadãs’ e ‘Sabedoria popular’ ganharão novo lançamento.

A “literatura” do desembargador não vale o esforço de uma página virada. O processo movido contra o jornalista Cristian Góes, ao contrário, será lembrado para sempre – uma façanha involuntária.

As circunstâncias legais do episódio são as mais singulares. Há ali mais imaginação e absurdo do que nas academias de letras encarquilhadas. A crônica ‘Eu, o coronel em mim’, uma ousadia profissional de Cristian Góes, aponta o dedo para o mandonismo malocado sob a toga de uns e outros. Àquela altura, o tema já era oportuno. A redação logrou a sua graça. Por alguma razão misteriosa, no entanto, o desembargador não simpatizou com o pensamento levado à ponta da pena. E obrigou o jornalista a se expor no cadafalso.

Em terra de cacique, manda quem pode e obedece quem tem juízo. Cristian descreveu um coronel afeito a arbitrariedades, sem a necessidade de apontar nomes, lugares ou datas. Mas o desembargador vestiu a carapuça, assim mesmo. Em julho de 2013, o meu amigo foi condenado a sete meses e 16 dias de prisão, pena convertida depois em prestação de serviços comunitários.

À época do primeiro lançamento de ‘Sabedoria popular', o desembargador se derramou em lamentos sobre as limitações da tradição oral, com o fim de justificar o seu rompante lírico. De fato, a memória preservada é artigo valioso, a ponto de recompensar o exercício mal pago do Jornalismo nosso de cada dia. Aliás, não há outra razão para este post – um remédio amargo contra cabeça fraca.

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